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19 de ago de 2015

A CHAVE DO GRANDE MISTÉRIO - RESENHA


A chave do grande mistério - Rosa De Souza

Daniel Salinas, arqueólogo brasileiro, é convidado a liderar as escavações de um sítio recém descoberto no Egito. Lá descobre um artefato: uma caixa de topázio misteriosa, que só ele consegue abrir. Dentro dela está um Ank dourado, e somente ele em toda a Terra pode tocá-lo.

Perseguido por uma organização misteriosa, Daniel foge e envolve-se em aventuras inacreditáveis onde ele descobrirá seres do interior da Terra e aprenderá sobre o poder que cada um tem dentro de si.



Sobre a autora
Rosa De Souza nasceu em Lisboa, Portugal, naquele bairro de monumentos inigualáveis e pastéis inesquecíveis, Belém. Depois de ter estudado literatura na Sorbonne em Paris, foi viver nos Estados Unidos.
Lá, estudou contabilidade e descobriu outro lado da sua criatividade, a pintura. Rosa esteve em contato com místicos de vários países e culturas, para definitivamente dedicar-se a estudos que iam da mitologia, à filosofia e história até o misticismo prático, tendo escrito poesia e ensaios, que publicou em várias revistas americanas.

Em 1983, na cidade de Washington D.C., deu início à sua carreira de palestrante, o que é um dos seus maiores prazeres.  Rosa é casada com o ator Aguinaldo José de Souza Filho, e vive em Florianópolis, Santa Catarina, desde 2004. Para ela o mais importante na vida é transmitir ao maior número de pessoas que ninguém nasceu para sofrer, mas para evoluir.

Extraído do site oficial: http://www.rosadesouza.com/sobre.html.

Minhas impressões…
É fácil elogiar um livro quando você se apaixona por ele, é bom elogiá-lo quando você acha que ele poderia ser melhor, mas que está no caminho certo, mas é complicado dizer abertamente que não gostou do que leu.
Apesar da premissa tão interessante, “A chave do grande mistério” me decepcionou demais. Pela quantidade de livros que a autora já publicou, imaginei encontrar uma escrita madura e coerente, ao menos argumentos plausíveis ou, pelo menos, convincentes, sobre algum “grande mistério”. Porém, como não acontecia há tempos, tive vontade de abandonar o livro antes de chegar à metade.

Em primeiro lugar, não sei em que língua o livro foi escrito originalmente, mas o texto todo precisa de uma revisão urgente. Isso, em si, não seria o maior problema, se a história fosse minimamente satisfatória, mas não é. Ela se enrola em diálogos onde cada fala dura quatro, cinco páginas, e se desdobra em milhões de divagações a respeito do âmago do ser humano, o que, de forma alguma, ajuda a compreender alguma coisa. Algumas das frases têm realmente impacto, mas são tantas, e se repetem tantas vezes ao longo do livro, que acabam perdendo o sentido.

Daniel Salinas, que ao longo do livro encontra-se com outras quatro civilizações teoricamente mais avançadas que nós, e que desejam nosso equilíbrio para que nossas guerras nucleares não os afetem, embora adquira poder para se teletransportar, se curar, etc., não passa a sensação de que evolui. E as civilizações que ele visita (ou, melhor dizendo, que o abduzem), embora apresentem, cada uma, suas melhorias em relação ao nosso mundo, têm outros tantos defeitos que não consigo entender o porque de serem consideradas melhores do que as nossas. Além disso tudo a história por trás da organização secreta que comanda o mundo e que deseja destruir Daniel Salinas e seu Ank misterioso é totalmente descabida. Em certos momentos, o texto passa de uma efêmera tentativa de se aproximar de algo como “O Código Da Vinci”, sem nenhum sucesso, para a narrativa de um capítulo de “Dragon Ball Z”.

Porque não vou conseguir falar tudo sem revelar alguma coisa sobre a história. É impossível entender a evolução de Daniel Salinas que, nas últimas páginas do livro, totalmente apaixonado por sua mulher Marília, transa com outra personagem que teve a vida sofrida simplesmente porque o lugar era propício e aquela mulher o amava. Não consigo entender que "evolução" é essa do ser humano, que promove que não ser fiel e transar com quem quiser faz sentido numa sociedade mais evoluída (não é discurso de puritana, simplesmente não encontrei um argumento favorável a este pensamento, e o livro não traz nenhum, a não ser o "assim é evolução e ponto". Gosto de ser convencida, de ser obrigada a repensar minhas convicções, e só cheguei a me aborrecer com a ideia). Tampouco entendi como, após a “transformação” de todas as pessoas do mundo — que matou todas as pessoas que não quiseram evoluir — deixou vivo o homem que queria matar Daniel, e deu a ele todos os poderes de um ser evoluído. Não há explicação convincente também para o fato de uma sociedade celestial vir nos ajudar a evoluir, sendo que eles vivem tão distantes de nós. Pelo que se diz no livro, as nossas “ondas” negativas soariam no espaço, afetando-os, mas essa explicação simplesmente não é suficiente. Não soou genuína. Mesmo em um livro de fantasia, você tem que conseguir convencer seu leitor, e se a raça humana estivesse diante de um povo alienígena e bonzinho que veio para ajudá-la a se transformar a troco de nada, tenho certeza de que pouca gente iria confiar cegamente nesse povo. Além disso e da bizarrice que são os “estupros” que Daniel sofre das mulheres de duas raças subterrâneas (bizarrice, porque o sexo delas é bem diferente do nosso), fiquei imaginando que tipo de mundo perfeito resulta de uma transformação onde metade das pessoas – das suas famílias, dos seus amigos, dos seus próximos – simplesmente morreu porque não evoluiu como o esperado naquele exato instante.

Para mim é um livro esquisito, mais longo do que o necessário, que se repete dezenas de vezes, e que não satisfaz. 


12 de ago de 2015

JOGOS VORAZES III - ESPERANÇA - Resenha

A Esperança - Jogos Vorazes - Livro 3 - Suzanne Collins

Sinopse

Depois de sobreviver duas vezes à crueldade de uma arena projetada para destruí-la, Katniss acreditava que não precisaria mais lutar. Mas as regras do jogo mudaram: com a chegada dos rebeldes do lendário Distrito 13, enfim é possível organizar uma resistência. Começou a revolução. A coragem de Katniss nos jogos fez nascer a esperança em um país disposto a fazer de tudo para se livrar da opressão. E agora, contra a própria vontade, ela precisa assumir seu lugar como símbolo da causa rebelde. Ela precisa virar o Tordo. O sucesso da revolução dependerá de Katniss aceitar ou não essa responsabilidade. Será que vale a pena colocar sua família em risco novamente? Será que as vidas de Peeta e Gale serão os tributos exigidos nessa nova guerra?




Considerações

No último livro da trilogia, somos apresentados a um cenário diferente da arena em que Katniss disputou os dois últimos Jogos Vorazes. Agora, ela não está mais submetida à Capital e ao Prefeito, pois está sob a proteção do Distrito 13, que, supostamente, não deveria mais existir.

Finalmente somos apresentados à política que mantém a frágil estrutura de Panem e seus 12 Distritos. Revoltados com suas condições de vida e com a rígida segregação a que são submetidos, os Distritos começam a se levantar contra a Capital, e adotam Katniss — a sobrevivente de duas edições de Jogos Vorazes, aquela que demonstrou compaixão por uma garota que não conhecia, e que adotou seu canto assobiado imitando um tordo como símbolo, forçada a combater aquele que eles pensam ser o amor de sua vida, ainda por cima (teoricamente) grávida — como seu estandarte.

Mas a Capital não pretende perder os privilégios que tem. Como centro do poder armado, seus moradores desfrutam da melhor fatia do que é produzido em cada um dos doze Distritos, e o Prefeito pretende manter as coisas exatamente como estão, por isso, como retaliação pela insolência de Katniss, ele bombardeia e destrói o Distrito 12, aquele em que ela vivia.

Resgatada da arena preparada para o Massacre Quaternário, Katniss acorda num lugar que, supostamente, não existe mais, o Distrito 13, que se envolveu numa disputa armada com a Capital no passado, e, segundo consta nos noticiários repetidos, foi destruído como o 12. A verdade é que o tal Distrito aceitou um acordo para sair do cenário, pois um conflito poderia devastar o pouco que sobrou da sociedade, já que o 13 era o Distrito que possuía armas nucleares.

No entanto, a independência do Distrito 13, que parece a princípio uma questão de liberdade dogmática, na verdade tem outras aspirações. A líder do 13 é uma mulher dura, que não se deixa contaminar pelos ânimos inflamados dos rebeldes e demonstra, a todo momento, seu descontentamento em usar Katniss como símbolo de sua rebelião.

A narrativa em primeira pessoa nos coloca na pele de Katniss, que se vê presa como uma peça num tabuleiro jogado pela líder do 13 e pelo Prefeito. A ansiedade dela transpassa pelas páginas, e a dúvida entre Peeta e Gale, os dois rapazes com quem ela pode fazer um par romântico, perde espaço para a insanidade que ameaça tomar conta dela. Katniss está mais sombria e perturbada, e vai piorando a cada página, mostrando sinais da deterioração causada pela participação nos Jogos Vorazes e por se ver numa situação sem escapatória: a de inspirar o povo à rebelião.

Embora o livro seja tão fácil de ler quanto os outros dois, e prenda da mesma maneira, o clima claustrofóbico tirou um pouquinho do brilho da história. Katniss é um símbolo, mas como podemos ver através dos olhos ela, sabemos que, na verdade, ela apenas se sente usada mais e mais, agora pelo Distrito 13, que quer tomar o poder da Capital. Os conflitos emocionais aos quais ela é submetida são devastadores, especialmente quando Peeta é resgatado após uma tortura com veneno e lavagem cerebral que o faz pensar que Katniss é um monstro. E, quando a batalha se torna presente, Katniss se vê numa Capital cercada pelas mesmas armadilhas que ela conheceu na arena dos Jogos Vorazes, e o que poderia ser uma guerra sem precedentes se transforma numa gigantesca edição dos tais jogos, que culmina com mais mortes do que um mundo pós-apocalíptico poderia admitir, e perdas irreparáveis para a heroína.

No ápice do livro, após a derrota da Capital o Distrito 13 decide fazer uma edição final dos Jogos Vorazes, colocando para competir os filhos e filhas dos membros da Capital, como punição. Horrorizada, Katniss concorda, só para ter liberdade para agir conforme sua própria consciência manda. Então acontece o clímax do livro, aquele momento em que Katniss toma a decisão de atirar sua flecha final na líder do 13° Distrito, deixando Panem  sem um governante, pois o Prefeito também morre, e mudando finalmente os rumos da história. O final foi interessante, apesar de previsível.

No geral o livro é bom, embora o clima seja pesado a ponto de deixar o leitor com uma sensação de desespero. Fica claro que Katniss e Peeta jamais se recuperarão de suas experiências nos Jogos, que Gale se transformou completamente, assim como Haymitch, mentor de Katniss. O livro se chama “Esperança”, mas o que vi no final foi a promessa de que não há muita “esperança” para aquele povo, que fica sem governantes e cujo símbolo, a garota que eles seguiram, se transforma numa desvairada, sem poder para liderá-los. Pelo livro todo esperei que Katniss superasse sua instabilidade e seus medos, mas isso não acontece. Pelo menos ela termina com a pessoa certa, pois Gale se afasta de tudo em que ela acredita ao longo da história, e os dois passam a compartilhar apenas lembranças de algo que não existe mais. Peeta, ao contrário, representa o futuro, e é a única pessoa capaz de compreender o que ela sente.

Katniss nos deixa um breve relato de sua vida pós Jogos e rebeliões, e encontramos uma pessoa um pouco mais controlada, embora um bocado paranoica, vivendo com um marido que, vez por outra, a enxerga como monstro, e tendo como vizinho um bêbado irrecuperável, morando no que restou do Distrito 12, onde pouquíssimas pessoas residem também. Ela luta para manter a mente sã e ser uma boa mãe para as crianças que ela não queria – não por rejeitá-los, mas por medo de colocar crianças naquele mundo estranho. Pode parecer, para alguns, um final perfeito e romântico, mas achei um bocado triste. Muito real, porém, se considerarmos o fato de que os sintomas dela são similares aos de pessoas com traumas pós-guerra.


Conclusão: é um final adequado à serie, mas poderia ser melhor, especialmente porque, além do tom torturado da heroína, achei a premissa política um pouco ingênua. Não há terceiras opções: ou é o Distrito 13 ou a Capital, e isso torna as coisas um pouco infantis. O bombardeio da Capital ao Distrito 12, destruindo-o completamente, é uma cena poderosa, mas totalmente irracional: era de lá que vinha o carvão que a Capital usava e, sem o produtor, não fica claro como será feita a extração do minério tão necessário, por exemplo. Há muitos outros detalhes menores, como o fato do 13 possuir armamento nuclear e que poderia ter sido mais explorado.

29 de jul de 2015

EM CHAMAS - JOGOS VORAZES - RESENHA

Em Chamas - Jogos Vorazes - Livro 2 - Suzanne Collins

Sinopse

Em chamas é o segundo volume da bem-sucedida trilogia iniciada com Jogos Vorazes, mais novo fenômeno da literatura jovem dos últimos tempos, que mistura ficção científica com reality show, passando pela mitologia e pela filosofia com muita ação e aventura. Com mais de quatro milhões de exemplares vendidos apenas nos Estados Unidos, a saga ganhará adaptação para o cinema, com estreia prevista para 23 de março de 2012. A direção do longa está a cargo de Gary Ross (Quero ser grande/Seabiscuit) e a protagonista Katniss será interpretada por Jennifer Lawrence, finalista ao Oscar de melhor atriz deste ano por Inverno da alma. A trilogia manteve-se por 130 semanas consecutivas na prestigiada lista do jornal The New York Times.

Depois de ganhar os Jogos Vorazes, competição entre jovens transmitida ao vivo para todos os distritos de Panem, Katniss agora terá que enfrentar a represália da Capital e decidir que caminho tomar quando descobre que suas atitudes nos jogos incitaram rebeliões em alguns distritos. Os jogos completam 75 anos, momento de se realizar o terceiro Massacre Quaternário, uma edição da luta na arena com regras ainda mais duras que acontece a cada 25 anos. Katniss e Peeta, então, se veem diante de situação totalmente inesperada e, dessa vez, além de lutar por suas próprias vidas, terão que proteger seus amigos e familiares e, talvez, todo o povo de Panem.

Ambientado num futuro sombrio, a série é pioneira de uma tendência que vem ganhando força no mercado de bestsellers juvenis: a dos romances distópicos e pós-apocalípticos. As obras renderam à autora Suzanne Collins lugar na badalada lista de 100 personalidades mais influentes do ano da revista Time. Com narrativa ágil e ousada, os livros da trilogia foram traduzidos para 42 países e vêm atraindo leitores de diversas faixas etárias.

Inspirada pelo mito grego de Teseu e o Minotauro e bebendo nas melhores fontes da ficção científica, Suzanne Collins faz uma dura crítica à sociedade atual – ao sensacionalismo, ao desperdício e à violência – e prende a atenção do leitor da primeira à última página com um romance envolvente e perturbador.





Considerações

Como o primeiro, li o segundo Jogos Vorazes após ter assistido os dois filmes, e acreditava já estar por dentro da história. Tenho que dizer: o filme perde pouco para o livro, é muito bem feito! No entanto, como todo bom livro, as sensações de ler as cenas da arena são amplificadas quando comparadas com as que você tem ao assistir o filme.

Neste segundo volume começamos a perceber a deterioração da mente de Katniss e Peeta, que parecem bem para as câmeras, que continuam a assediá-los, mas que, no fundo, sofrem um estresse gigantesco, expressado por sonhos atormentados de Katniss ou pelas pinturas em telas de Peeta. E, embora Katniss acredite que o pior já passou, fica claro que o que a atitude dela nos Jogos Vorazes – usar a comoção geral para salvar a si mesma e ao companheiro de Distrito, dando aos Jogos inéditos dois vencedores – não ficará impune. O Prefeito não está convencido de que o romance seja real (e de fato não é), e insinua que, se Katniss não convencê-lo e à população da capital que o amor dela e de Peeta é genuíno, algo de muito ruim acontecerá.

Como a garota é péssima atriz e muito seca, é óbvio que ela não consegue convencer o homem, mesmo usando o artifício de marcar um casamento próximo, e o castigo aplicado pela Capital é, nos próximos Jogos Vorazes, chamados “Massacre Quaternário”, que ocorrem a cada 25 anos e celebram os 75 anos de Jogos com uma rodada a mais de violência, levar novamente os campeões das edições anteriores, provando assim que ninguém está acima da Capital.

Os Jogos são mesmo terríveis, e o leitor começa a perceber nas entrelinhas que há mais coisas acontecendo do que conseguimos entender. Sabemos que, por algum motivo, personagens que parecem inimigos de Katniss estão dispostos a morrer para deixá-la viva, e que, fora dali, há um levante nos Distritos contra a Capital, e parece que Katniss é uma espécie de símbolo dele. A arena é muito original com seu esquema de contagem regressiva para coisas horripilantes, e há muita tensão durante toda a aventura.

No entanto, como tudo o que acontece é narrado pelos olhos de Katniss, só podemos conjecturar a respeito do que acontece fora da arena, e toda a conspiração e os motivos dela para salvar Katniss só vão ficar claros no terceiro volume da série. O mais interessante no livro são os conflitos internos que ela tem, tentando entender se gosta de Peeta ou de Gale, seu companheiro de caça e melhor amigo no Distrito 12, de onde vem, ou buscando proteger a irmã caçula.

Novamente li este livro em dois dias e me agradou bastante, embora não tenha um enredo muito diferente do primeiro. É claramente uma ponte para o último livro e, apesar de eu ter gostado, fiquei com a sensação de que poderia ser melhor explorado, principalmente no que acontece fora da arena e Katniss não sabe. O ponto forte da trama é, sem dúvida, o detalhamento psicológico dos personagens, que vão se tornando mais e mais sombrios à medida que a história se desenrola.


21 de jul de 2015

BIOSFERA ALIEN - RESENHA

Biosfera Alien - Conrado Carvalho
Sinopse

“Há 65 milhões de anos atrás, alienígenas priveram a extinção dos dinossauros e criaram a Biosfera Alien, com intuito de preservar as espécies existentes.

Nos dias de hoje uma raça de lagartos sapiens tenta roubar esta tecnologia e se esconder na Terra. O livro mistura dois universos fantásticos. Aliens e dinossauros. Surpreenda-se com uma nova forma de enxergar a vida e embarque nesta aventura.

Escrito em 1999, Biosfera Alien é uma obra de ficção científica que busca entender o que aconteceria se os dinossauros não fossem extintos e nossa relação com a descoberta de novas raças de seres inteligentes existentes no Universo.”


Fonte: http://www.biosferaalien.blogspot.com.br/



Considerações

Biosfera Alien é o livro de estreia do escritor brasileiro Conrado Carvalho, e conta uma aventura que mistura alienígenas, dinossauros, indígenas, a Floresta Amazônica e pesquisadores abduzidos.

É normal que o leitor atento encontre alguns problemas nos livros auto publicados, que não passam pelas mãos de uma grande editora com um revisor competente. No entanto, nesta primeira versão que me chegou às mãos, o texto de Conrado Carvalho apresenta muitas falhas, algo que indica pressa em finalizá-lo. Há a necessidade urgente de uma revisão atenta e minuciosa, coisa que o autor garantiu que será resolvido em breve.

A história é rápida, e seu primeiro terço é voltado mais para a parte descritiva do cenário e das espécies envolvidas, sua história e como as diversas raças de alienígenas se relacionam. A aventura em si fica em segundo plano, e confesso que fiquei um pouco confusa, pois o livro é pequeno (menos de cem páginas), e foi lançada uma grande quantidade de informações em poucas páginas. 

Entretanto, vencidas estas primeiras páginas, a aventura de Bruno e Stella, um casal de férias na Amazônia que acaba abduzido pela nave alienígena Biosfera Alien, criada por uma determinada raça alienígena há milhões de anos para conservar a diversidade de vida que existia na época jurássica.

Acompanhamos grandes escapadas de Bruno enquanto foge de pterodátilos e tiranossauros, numa corrida vívida, aparentemente inspirada nos filmes Jurassic Park e Indiana Jones. A mistura é agradável e o cenário descrito é bonito, com destaque especial para uma cachoeira de pedras de cristal, e corremos com o protagonista ao mesmo tempo em que uma pesquisa urgente na Terra precisa chegar a um fim para salvar a humanidade de uma horrenda epidemia.


O argumento deste livro é interessante, misturando ficção científica com aventura, e tem uma pegada infanto-juvenil que me lembrou, por algum motivo, o livro “A Sociedade da Caveira de Cristal”, que tem uma história bem diferente, mas apresenta uma narrativa similar ao que li em Biosfera Alien. É um texto promissor, mirabolante e criativo, e tem tudo para representar a literatura infanto-juvenil brasileira. Mas faltam alguns ajustes na narrativa e uma boa revisão.

15 de jul de 2015

A MALDIÇÃO DO TIGRE - Resenha

A Maldição do Tigre – Colleen Houck

Sinopse

A Maldição do Tigre - Kelsey Hayes perdeu os pais recentemente e precisa arranjar um emprego para custear a faculdade. Contratada por um circo, ela é arrebatada pela principal atração: um lindo tigre branco.

Kelsey sente uma forte conexão com o misterioso animal de olhos azuis e, tocada por sua solidão, passa a maior parte do seu tempo livre ao lado dele.

O que a jovem órfã ainda não sabe é que seu tigre Ren é na verdade Alagan Dhiren Rajaram, um príncipe indiano que foi amaldiçoado por um mago há mais de 300 anos, e que ela pode ser a única pessoa capaz de ajudá-lo a quebrar esse feitiço.

Determinada a devolver a Ren sua humanidade, Kelsey embarca em uma perigosa jornada pela Índia, onde enfrenta forças sombrias, criaturas imortais e mundos místicos, tentando decifrar uma antiga profecia. Ao mesmo tempo, se apaixona perdidamente tanto pelo tigre quanto pelo homem.



Considerações

Eu não julgo um livro pela capa, mas como a capa é o cartão de visitas de um livro, não dá pra ignorá-la, ainda mais no caso de A Maldição do Tigre, em que a capa metalizada, com letras em relevo, e um tigre branco de olhos azuis, é tão fabulosa. Quando vi que a série estava disponível na biblioteca municipal, peguei o primeiro livro sem hesitação (porque eu não sou compradora voraz não, só compro os livros que amo muito e quero reler várias vezes, ou que não encontro na biblioteca). Li a sinopse falando sobre mitos indianos e fiquei interessada.

Assim que comecei o livro tive um leve desapontamento, porque a linguagem do texto é bem mais adolescente do que eu tinha imaginado, porque, pela sinopse e pela capa, imaginei uma história mais densa. Prossegui imaginando mais ou menos quais seriam os passos da personagem, porque depois de uma sequência de romances adolescentes com triângulos amorosos e toques de sobrenatural, você começa a prever o rumo que esse tipo de história vai tomar, principalmente sabendo que se trata de uma série.

O começo da trama me cativou, com a história do primeiro emprego de Kelsey ser num circo e da forma como ela conhece Ren. O tigre branco, que já pela sinopse sabemos se tratar de um príncipe enfeitiçado, aparece nitidamente na imaginação do leitor, belo e gracioso, e a história vai bem até o ponto em que Kelsey é convidada a levar o tigre até a Índia, porque, em uma semana, desenvolveu um laço inestimável com ele.

Nesse ponto que comecei a desanimar. Tudo bem que o laço de Kelsey e seu príncipe é algo sobrenatural, o que me incomodou nessa parte não foi isso, foi a tranquilidade dos pais adotivos encararem a viagem da garota com um desconhecido para outro continente, sem nem cogitar os perigos de algo assim. Enfim, Kelsey é uma “recém”- adulta, e relevei esse incômodo.

Ao chegar à Índia, Kelsey e o tigre (que finalmente se revela Ren, o príncipe amaldiçoado), passam por diversas aventuras na tentativa de encontrar uma pista para quebrar a maldição. As aventuras são legais e os cenários indianos são muito bem construídos, mas eu não fiquei, em nenhum momento, com a sensação de perigo que fiquei, por exemplo, ao ler Mundo Selvagem. São excursões que acabam em eventos do tipo Indiana Jones (vi outras pessoas fazendo essa comparação, e cabe bem aqui), porém sem o mesmo charme do professor. E, com um palácio espetacular esperando por eles no final de cada expedição, sempre sabemos que os dois terão conforto e ficarão novamente lindos e reluzentes após cada aventura na selva.

O encontro com Kinshan, o irmão (malvado? Ou só implicante?) de Ren, também amaldiçoado e que vive sob a forma de um tigre preto, é interessante, apesar de previsível, e sua participação na história deixa um cheirinho de um possível triângulo amoroso futuro que eu já sentia desde que este irmão foi mencionado pela primeira vez, sem nem saber se ele apareceria na trama. Posso me surpreender, mas tenho convicção de que os próximos livros trarão o tal triângulo.

Por fim, o que mais me incomodou neste livro é a involução de Kelsey. Se ela começa como uma adolescente forte, que se tornou autossuficiente após perder os pais e que luta pelos seus sonhos, à medida em que a leitura avança ela vai retrocedendo, se tornando cada vez mais insegura, e quando acompanhamos o casal protagonista no meio de uma aventura sangrenta com árvores espinhosas e potencialmente mortais, os dois feridos e exaustos, e percebemos que o foco da discussão está na insegurança de Kelsey em ser ou não correspondida por Ren, que ela acha que é demais para o caminhãozinho dela, a paciência vai ao limite do suportável. Só terminei o livro porque já estava mesmo no fim e porque a leitura é bem light, sem firulas, então dá pra ler bem rápido.

O desfecho deste primeiro livro é irritante e idiota, e a vontade é de dar um chacoalhão na Kelsey, tão insuportável ela se torna. E o presente de recompensa que o príncipe dá a ela me fez lembrar de Crepúsculo, pois, assim como Edward, o cara é vítima de uma maldição, é imortal, e podre de rico, tanto que a mocinha nunca mais na vida terá preocupações mundanas como arrumar um emprego para se sustentar, o que dá a impressão de ser uma manobra da autora para desculpar a falta de todos os problemas normais com os quais ela não vai lidar nos próximos livros. Nada contra, mas a riqueza suprema dos envolvidos nesses livros sobrenaturais é uma saída muito clichê.


Enfim, pela fluidez do texto e por apresentar um cenário exótico e diferente, é um bom passatempo… mas é bom que o leitor esteja preparado pra ficar irritado com a mocinha no final. Por ter um argumento tão diferenciado, podia ser melhor.

10 de jul de 2015

Morte Súbita - Resenha

Morte Súbita

Sinopse

Morte Súbita - Quando Barry FairBrother morre inesperadamente aos quarenta e poucos anos, a pequena cidade de Pagford fica em estado de choque. A aparência idílica do vilarejo, com uma praça de paralelepípedos e uma antiga abadia, esconde uma guerra.

Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com os maridos, professores em guerra com os alunos Pagford não é o que parece ser à primeira vista.

A vaga deixada por Barry no conselho da paróquia logo se torna o catalisador para a maior guerra já vivida pelo vilarejo. Quem triunfará em uma eleição repleta de paixão, ambivalência e revelações inesperadas? Com muito humor negro, instigante e constantemente surpreendente, Morte Súbita é o primeiro livro para adultos de J.K. Rowling, autora de mais de 450 milhões de exemplares vendidos.



Considerações

É difícil julgar um escritor quando se é fã incondicional dele. J.K.Rowling fez parte da minha adolescência e me acompanha até hoje, pois releio Harry Potter sempre que dá vontade. Os sete livros da coleção estão amarelados e gastos, como os livros de biblioteca depois de um tempo, mas eu e minha mãe somos as únicas a manuseá-lo.

Talvez tenha sido por isso que não procurei muitas informações sobre Morte Súbita. O máximo que li foi um trecho de uma resenha no Skoob de uma garota que falava que este livro não é nada parecido com Harry Potter.

Não, eu não esperava um livro de magia, mas fui ludibriada pelo título porque, associando-o com a sinopse, acreditei que se tratasse de um romance policial, e só percebi que não era nada disso já bem adiantada. A essa altura, eu já estava fisgada.

Logo no início, nas primeiras páginas mesmo, acontece o evento que alterará a vida da pacata comunidade de Pagford: um dos Conselheiros da cidade morre, o que deixa sua vaga livre. Este é o estopim para uma série de tramoias e manobras que os próximos candidatos à vaga vão se envolver, numa teia intrincada que envolve amigos, opositores e oportunistas, suas famílias, maridos, esposas, filhos e parentes.

Tive a sensação de ser jogada num turbilhão, algo parecido com o que aconteceu comigo no início do meu namoro, tempos atrás, quando conheci toda a família do meu marido em uma festa de Natal: cerca de cinquenta novos nomes, vozes e rostos, de quem eu deveria me lembrar. Devo explicar que sou péssima com nomes, e ainda hoje tenho dificuldade para lembrar da minha própria árvore genealógica, e, ao ser introduzida no seio das famílias de Pagford e me ver acompanhando eventos nas casas de vários membros, fiquei bem perdida. Cheguei a pensar que não conseguiria ler Morte Súbita até o fim, ou que não conseguiria ver nenhuma graça na história porque não ia conseguir memorizar os nomes de cada personagem.

Mas, depois de trinta, quarenta páginas, me vi pensando em uma das personagens, e em como ela ia reagir ao que tinha acabado de acontecer. E percebi que estava completamente enfeitiçada.

É impossível falar da história de Morte Súbita sem falar de cada um de seus personagens, e são tantos e com características tão distintas entre si, que não consigo pensar em como falar deles sem desmerece-los. Mas posso dizer que, ao acompanhar a corrida pela eleição do novo Conselheiro, começamos a descobrir que a bucólica e paradisíaca Pagford não é uma comunidade tão pura e bela quanto parece. Seus moradores têm qualidades e defeitos, e, se são heróis para algumas coisas, são vilões em outros momentos. Nos vemos constantemente pensando em como fulano ou ciclano se parece com pessoas que conhecemos no dia a dia, e a presença deles é tão marcante que, no final, temos a sensação de conhece-los a vida toda.

É notável como Rowling trabalhou com o psicológico de cada personagem, e também com o papel decisivo que os adolescentes têm nos rumos desta história. Vivemos alegrias e tristezas, e, se o final é de partir o coração, serve também para refletir e mostrar que a vida não é um conto de fadas, pois Morte Súbita não é mesmo um conto de fadas. É, antes, a história de como uma única pessoa (no caso Barry Fairbrother, o Conselheiro que morre no início), é capaz de afetar direta ou indiretamente tantas vidas, e alterar o curso delas.

E, embora a trama em nada se relacione com o fenômeno infanto-juvenil da autora, posso dizer que consegui ver nitidamente a assinatura característica de Rowling que foi a mesma que me prendeu a Harry Potter desde o início: a capacidade que ela tem de construir um universo inteiro convincente, com personagens tão sólidos e críveis, que se relacionam em diversos níveis e momentos, fazendo com que as letras desapareçam do papel, e nos vejamos submersos nas casas de cada um dos cidadãos pagfordianos.

Ah! Para os curiosos de plantão, este livro se tornou uma minissérie em três episódios, que você pode conhecer aqui: http://www.imdb.com/title/tt2554946/?ref_=fn_al_tt_1 Mas, se você é desses que comparam livro e filme, tome cuidado: é impossível ser fiel a um livro da Rowling de 500 páginas em três horas de série. Eu e meu marido assistimos, e ele ficou ainda mais irritado com a mutilação da história do que eu. Mas vale como a visualização do cenário.


8 de jul de 2015

NATUREZA - meu novo conto

Faz tempo que não publico nada aqui a não ser minhas resenhas, então lá vai: estou participando do concurso ‪#‎brasilemprosa‬ na Amazon! E hoje o conto NATUREZA está grátis para download!


Leia e classifique essa história, você nem imagina o quanto uma notinha pode representar para esta escritora!



5 de jul de 2015

ZONA MORTA - RESENHA

Sinopse

Zona Morta - Jonny Smith é um simplório professor secundário, acorda de um coma de cinco anos aparentemente sem sequelas, a não ser por uma área de seu cérebro danificada, que o impede de reconhecer certos objetos. Os médicos dão a essa área o nome de zona morta.

Mas a zona morta abriga muito mais do que memórias esquecidas. Por conta dela, Johnny desenvolve o poder de prever o futuro. Isso também é sua condenação - nela cresce um tumor que rapidamente suga suas energias.

Após conhecer Greg Stillson, um inescrupuloso candidato a deputado, Johnny tem terríveis visões do político como presidente dos Estados Unidos e o país mergulhando numa guerra nuclear. Perturbado, ele terá que enfrentar o difícil dilema: sofrer em silêncio, sabendo das tragédias que virão, ou matar Stillson, numa desesperada tentativa de impedir a catástrofe prenunciada.



Considerações

Este livro chegou às minhas mãos através de uma troca no site Skoob. Escolhi Zona Morta por causa do autor, pois sendo ele Stephen King já imaginava mais ou menos o que me esperava. Exatamente como disse a menina que me enviou, o livro era bem antigo, com as páginas amarelas, mas não me importei: fora isso, estava perfeito, exatamente como foi publicado 30 anos atrás, com essa capa terrível. Convenhamos, se fosse o livro de um autor iniciante numa livraria qualquer hoje, julgando pela capa eu passaria longe dessa aí. Salve o design! Mas design nenhum muda o conteúdo e, dentre os livros de King que já li, confesse que este foi o que menos me agradou.

No livro acompanhamos a vida de Jonny Smith, um rapaz aparentemente normal, mas que já mostra sinais de que tem uma capacidade peculiar de vislumbrar o futuro, e vemos como, logo após conhecer a garota dos seus sonhos, ele sofre um acidente e entra em coma. Só cinco anos depois Jonny acorda, e a realidade que o aguarda é perturbadora: a mulher que ele amava se casou com outro e tem um filho; a mãe enlouqueceu, tornando-se uma fanática religiosa; o pai se aguenta como pode, e é o único que mantém um pouco da sanidade em meio a toda a confusão; e Jonny torna-se quase um experimento ambulante, já que médicos de todo o mundo querem estudar o fascinante homem que acordou do coma, e descobrir o que aconteceu com seus músculos, com seu sangue, com seu coração, se ele poderá andar de novo, se tem alguma sequela, coisas assim. Além disso tudo, Jonny não tem mais emprego, e a dívida acumulada do hospital é gigantesca.

Mas, antes mesmo de deixar o hospital, Jonny descobre que suas habilidades de enxergar o futuro, ou ler coisas nas mentes das pessoas, está muito mais poderosa. Por causa delas, Jonny ajuda a salvar pessoas e a prender um assassino, é tido como aberração por alguns, como charlatão por outros, e como ídolo de adoração por outros ainda, e acaba se refugiando no interior. Consegue voltar a lecionar como professor particular, e, por ser muito querido por seu primeiro aluno milionário, e por conseguir ensiná-lo e ajudá-lo a vencer seus bloqueios didáticos, e também por evitar que o garoto fosse morto durante uma tragédia prevista por Jonny, que acontece numa festa de que o aluno participaria, cai nas graças do pai do rapaz, que, em gratidão, paga sua dívida no hospital e ainda lhe garante dinheiro para viver tranquilo por um bom tempo.

No entanto uma estranha visão o persegue: uma visão perturbadora de um tigre sobre corpos, que ele tem ao apertar a mão do candidato político Greg Stillson, e ele passa a acompanhar a carreira deste homem e acaba entendendo que a ascensão dele ao poder culminaria com a presidência, e se convence de que ele levaria o país à guerra nuclear. E isso seria bem possível, pois acompanhamos, paralelamente à história de Jonny, a história de Greg, e sabemos o quanto este homem é perturbado e mau.

Abdicando da normalidade e com a saúde cada vez mais frágil, Jonny passa a perseguir Greg e traça um plano para acabar, de uma vez por todas, com as chances daquele homem levar o país à guerra. O resultado é surpreendente, pois mesmo que Jonny não conclua exatamente como o planejado, as coisas acontecem do jeito como devem ser.

A trama é até interessante, mas neste livro o autor se estendeu tanto em todas as partes que ele se torna cansativo. Mais uma vez fui levada a acreditar que King deve sofrer de enxaquecas, pois Jonny tem as suas ao usar o poder mental. A parte que trata do período de coma e da convalescença de Jonny enquanto se recupera é massacrante, e não consegue prender o leitor da mesma forma que outros livros também de King. Além disso, os poderes de Jonny são muito parecidos com o de vários outros personagens de Stephen King, e eu o associei imediatamente a Andy McGee, de A INCENDIÁRIA. A namorada de Jonny, que acaba reaparecendo para um breve flash-back e em quem a história se foca no início, acaba não tendo nenhum papel relevante na história, diferente da mãe fanática religiosa, que faz um pedido a Jonny em seu leito de morte, e que o acompanha pelo resto da vida.

Concluindo: Zona Morta tem uma história legal, mas é bem cansativo de ler. Há outros livros deste autor bem melhores; no entanto, o final compensa a lentidão da linguagem, e dá ao próprio leitor a sensação de dever cumprido.


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23 de jun de 2015

O LADO BOM DA VIDA - RESENHA

O lado bom da vida – Matthew Quick
Sinopse
Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele 'lugar ruim', Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um 'tempo separados'. Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida.



Considerações

Comprei este livro após assistir o filme com mesmo título inspirado no livro. Confesso que me decepcionei um pouco. O filme tem um tom totalmente diferente, uma comédia dramática, e o livro é praticamente apenas drama, embora tenha uma história interessante.

Acompanhamos a volta de Pat Peoples ao lar após um tempo no “lugar ruim”, que é como ele chama o hospital psiquiátrico onde passou, na verdade, vários anos de sua vida, e não apenas alguns meses. Pat é agora obcecado por exercícios físicos, e acredita que sua mulher apenas deu um tempo no casamento por achar que Pat não era um bom marido, coisa que ele luta para demonstrar que não é mais verdade. Então Pat é apresentado a Tiffany, a cunhada de seu melhor amigo, que também enfrenta problemas psicológicos. Os dois começam a correr juntos, ainda que Pat não tenha exatamente convidado Tiffany para isso, e, por estarem os dois enfrentando problemas tão semelhantes, acabam se aproximando e se tornando amigos.

Vemos como ele tenta, aos poucos, deixar suas crises nervosas no passado e realmente ser uma pessoa melhor, no que é apoiado por seu irmão, pelo melhor amigo e por sua mãe, mesmo que seu pai não compartilhe dessa mesma atitude. A narrativa é interessante, já que parte do ponto de vista perturbado de Pat, nos colocando dentro da cabeça de alguém com distúrbios mentais. É um livro bonito, com uma história muito próxima do leitor comum, e se não fosse pelos setenta por cento dele que narram jogos de futebol americano dos Eagles, eu provavelmente teria gostado mais. O fato é que, mesmo sendo um drama e mesmo sabendo que a narrativa exaustiva dos jogos provavelmente foi um recurso literário para mostrar o grau de obcessão do personagem, a quantidade de detalhes sobre os tais jogos dos Eagles torna a leitura mais cansativa do que poderia ser. Se não fosse pela página final, com um final feliz do único jeito que poderia ser, seria um livro no máximo razoável, mas esse final existe, e faz toda a loucura de Pat fazer sentido de alguma forma.


Recomendo com ressalvas: não assista o filme primeiro, porque provavelmente o livro não vai agradar como poderia.

15 de jun de 2015

Marina - Resenha

Marina – Carlos Ruiz Zafón

Sinopse

Neste livro, Zafón constrói um suspense envolvente em que Barcelona é a cidade-personagem, por onde o estudante de internato Óscar Drai, de 15 anos, passa todo o seu tempo livre, andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões. É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção de Oscar, que logo se aventura a entrar na casa. Lá dentro, o jovem se encanta com o som de uma belíssima voz e por um relógio de bolso quebrado e muito antigo.

Mas ele se assusta com uma inesperada presença na sala de estar e foge, assustado, levando o relógio. Dias depois, ao retornar à casa para devolver o objeto roubado, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que o leva a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora. 

Os dois passam então a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher do cemitério, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra manequins vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona. Tudo isso pelos olhos de Oscar, o menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade do casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos. 

Em Marina, o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo, a cada capítulo, novas pistas e personagens de uma intrincada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Oscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é ela que vai ao encontro deles, como declara um dos complexos personagens do livro.



Considerações

A princípio, pensei em não resenhar este livro, tanto porque há muitas resenhas disponíveis na internet, como porque a sinopse conta até mais do que o necessário para fazer o leitor se interessar. No entanto, mudei de opinião após conversar com uma pessoa que teve uma impressão diferente da minha e da maioria das pessoas que vi.

Peço ao leitor que ainda não conhece essa história que tenha cautela ao ler esta resenha, pois precisarei revelar partes do enredo. 

Óscar é um garoto solitário que vive num colégio interno, e, ao final de cada dia, sai às vezes com seu melhor amigo, às vezes só, para passeios por Barcelona. Em certa ocasião, ele faz o trajeto sozinho, e descobre uma rua esquecida cheia de casarões abandonados. Quando já pensa em voltar, é seduzido por um canto doce, e acaba acidentalmente roubando um relógio da casa de onde vem o canto. Ao voltar à residência para devolver o objeto, Óscar conhece Marina, uma jovem mais ou menos da mesma idade que ele, que vive naquela casa da rua abandonada com o pai doente, de quem cuida. Marina não vai à escola e não tem muitos amigos, o que torna a amizade entre ela e Óscar natural.

A partir daí o leitor é envolvido num mistério: Marina quer descobrir a verdade sobre uma estranha mulher de véu preto que visita um cemitério esquecido de Barcelona, sempre no mesmo dia do mês, sempre à mesma hora. Os dois adolescentes se envolvem em mistérios que envolvem um cientista louco, experimentos grotescos com seres humanos, e um romance trágico, e cada revelação é mais surpreendente que a outra, deixando o leitor totalmente incapacitado de largar o livro. E, embora já exista mistério suficiente na história que os jovens estão investigando, ainda há um mistério que Óscar precisa desvendar sozinho: quem é Marina? Que segredos ela esconde? Pois obviamente existe um, e o leitor se pega imaginando, página após página, qual seria este mistério. Seria Marina um fantasma? Uma alucinação? Alguém de outra vida?

O segredo de Marina só é revelado no final da história, e certamente emociona o leitor, que se sente solidário e companheiro de Óscar, e sente toda sua solidão quando Marina parte, e o deixa sozinho mais uma vez.

No entanto…

Li Marina com a mesma empolgação com que li os outros livros de Carlos Ruiz Zafón. Ao chegar ao final, julguei que tinha entendido tudo: as revelações de Zafón revelavam tudo, simples assim. Porém, quando peguei este livro na biblioteca municipal, tanto minha mãe como meu marido o leram também no período em que o tive emprestado, o que proporcionou boas conversas a respeito dele. Minha mãe teve as mesmas impressões que eu e que a maioria dos leitores de quem li as resenhas.

Mas meu marido, que não é fã do gênero fantasia e que costuma ter pontos de vista diferentes, me mostrou uma outra possibilidade de interpretação do livro, que o torna ainda mais fascinante e misterioso, deixando uma grande interrogação que, creio, nunca se apagará.

Garanto que a dúvida deixada por Marina é tão intrigante quanto a veracidade ou não da traição de Capitu. Ou mais, já que as possibilidades do que teria acontecido ou não são muito maiores.

A PARTIR DESTE PONTO HÁ MUITAS REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO!

No início do livro, a nota do autor sobre o livro Marina é um tanto quanto reveladora: este é, talvez, o livro mais pessoal do escritor.

Logo no início do texto temos outra frase importante, dita por Marina para Óscar no meio do livro, e que ele reforça tanto no início quanto no final, e que é talvez a mais importante para lançar a teia de dúvidas que não se desenrola: Marina diz a Óscar que a gente só se lembra bem do que nunca aconteceu. E é nesse ponto que começamos a acompanhar os relatos de Óscar, já um homem de mais trinta anos, sobre o que aconteceu com ele na semana em que ficou desaparecido por Barcelona, para a qual ele deu explicações diferentes para cada pessoa, de acordo com o que a pessoa em questão poderia ou não entender.

Óscar é um menino solitário e vive num internato. Seus pais não fazem questão nem de passar as festas de fim de ano com ele, o que o torna um garoto de certa forma melancólico, e certamente louco para fazer parte de uma família. Então, quando ele conhece Marina e o pai dela, vive uma aventura e desvenda um mistério que ninguém sabia que existia no submundo de Barcelona. Quando passamos pelo clímax do livro, e todos os segredos são desvendados, e o misterioso cientista e sua fiel esposa enlutada morrem num grande incêndio, destruindo também todas as provas da existência da tragédia enigmática que envolveu os personagens, descobrimos, finalmente, que Marina é real, e que seu grande segredo, que a mantém afastada das pessoas e longe da escola, é que é ela quem está doente, não o pai dela. Então acompanhamos Óscar em suas visitas ao hospital até que, fatalmente, Marina morre, e Óscar passa uma semana desaparecido de Barcelona porque vai ao funeral dela sem contar a ninguém.

O livro termina aí, nos deixando com a sensação de uma tristeza profunda de um amor que poderia ter sido, mas que não aconteceu por uma terrível doença, refletindo a tragédia ocorrida com o casal misterioso: o médico cientista e sua mulher deformada, que visita seu túmulo coberta com um véu.

Entretanto, uma breve reflexão minuciosa nos leva a algumas constatações:

1 – Todos os personagens principais que tiveram conhecimento da existência de Marina ou da terrível história de mistério da viúva e do cientista, com exceção do pai dela, terminam mortos.

2 - O pai de Marina, único a conhecer a verdade sobre a filha, vai embora para nunca mais voltar, e Óscar não o vê mais, o que também nos permite duvidar de sua existência.

3 – Óscar não contou a absolutamente ninguém sobre Marina ou sobre suas aventuras com ela, nem foi questionado, em nenhum momento, pelos padres do internato, sobre suas misteriosas andanças.

4 – Uma cena em particular mostra Óscar sendo atacado no internato, e a criatura atacante deixando as mãos de madeira (próteses) de um dos personagens, sendo deixada no internato, ensanguentadas. No entanto, não há nenhum indício de que a polícia tenha sido acionada, e em nenhum momento posterior o internato entra em contato com o menino para falar sobre o ocorrido, o que levanta suspeitas sobre a realidade do ocorrido também.

5 – Marina e o pai vivem numa casa isolada em um bairro onde só existem casarões abandonados. Não têm energia elétrica por falta de dinheiro, e Óscar encontra a casa vazia várias vezes, quando entra sorrateiramente nela. A maioria dos móveis está sempre coberta por lençóis, e, em algumas ocasiões, há uma camada de pó cobrindo o chão, típico de casas abandonadas. E, ainda que sejam descritos como decadentes, até extremamente pobres, Marina e seu pai ocasionalmente têm dinheiro para comprar croissants, e o pai mantém, em perfeito estado, um carro antigo, que funciona perfeitamente bem, e poderia muito bem ser vendido como relíquia. Eles também têm dinheiro para abastecer o carro e ir à praia, além de pagarem viagens ocasionais para o tratamento do pai (que, mais tarde, sabemos que são tratamentos para Marina).

6 - Quando comparamos a data de nascimento de Zafón com a idade de Óscar e o ano em que se passa o livro, descobrimos que Zafón e Óscar têm a mesma idade, além de compartilharem a mesma cidade natal, Barcelona, o que nos leva a questionar o quanto da juventude real de Zafón pode haver na história.

No fim, fica a dúvida: será que Óscar, que pode ser um alter ego do autor, não inventou toda essa história por ser um menino solitário? Se sim, será que ele inventou apenas a parte mística, e Marina realmente existiu na vida dele? Ou então, por ser um menino tão sozinho, seria toda a história inventada pela imaginação fértil de um escritor preso em um internato? Teria tudo acontecido de verdade, e a história teria se tornado algo que “nunca aconteceu” porque o único a saber dela é Óscar, que nunca a contou a ninguém? Ou será que o próprio Óscar poderia não mais diferenciar a realidade da invenção, já que é tão fácil se lembrar bem do que jamais aconteceu?

A única certeza é de que as histórias de Zafón são incrivelmente belas, trágicas e mágicas, e Marina é, sem dúvida, uma das melhores.