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4 de mai de 2015

TÚNEIS - RESENHA

Túneis - Will é um garoto de 14 anos cuja única afinidade com seu excêntrico pai é a paixão pela arqueologia. Ele passa a maior parte do seu tempo livre cavando buracos nos arredores do terreno de sua casa para realizar descobertas científicas, fugir da pressão da escola e da mesmice da família. Um dia, seu pai desaparece misteriosamente por um túnel que Will não conhecia, e o garoto começa a cavar, literalmente, a verdade por trás do sumiço do pai.



Considerações

Encontrei este livro na biblioteca da minha cidade, da qual sou frequentadora regular, e decidi levá-lo por alguns motivos: primeiro, por que a capa é linda; segundo por que confundi com o livro “Buracos”, história que eu conhecia pela adaptação para o cinema. Confesso que me decepcionei quando percebi meu equívoco, mas depois de ler as primeiras páginas essa decepção foi toda embora.

Túneis prende o leitor desde a primeira página, onde acompanhamos Will e seu pai numa descoberta arqueológica no meio de uma escavação amadora, e fiquei grata por nunca ter ouvido falar desta história antes, pois eu gosto de ter boas surpresas ao pegar um livro desconhecido, não saber mais que a sinopse (neste caso, nem a sinopse eu tinha lido), e me deslumbrar com uma história curiosa e fascinante que vai se revelando pouco a pouco, como é o que acontece neste livro.

Se a princípio imaginei que soubesse os caminhos que o livro iriam tomar, já que a trama gira em torno do peculiar interesse de pai e filho pelas escavações arqueológicas, a trama vai ficando cada vez mais intrigante à medida em que vai revelando aspectos da relação familiar entre Will, um adolescente albino, seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova que, aparentemente, é o centro organizacional da casa toda. O clima da família chega a ser tão pesado quanto o que encontramos dentro dos túneis, já que simplesmente os quatro não têm nada em comum um com o outro. A mãe aparenta sofrer de alguma depressão severa que a mantém presa à poltrona da sala com um controle de televisão na mão constantemente, a irmã Rebeca sofre de TOC de forma aguda, o que acaba sendo bom, já que é ela que controla as finanças da casa, as compras da cozinha, a organização da roupa suja, tudo. O pai é excêntrico, tem um emprego normal como curador no museu local, mas gasta seu tempo livre em escavações secretas ou com o filho, temeroso de que outras pessoas roubem suas descobertas, e o filho, vítima de bullying a vida toda por ser albino, tem apenas um amigo, Chester, de quem se aproximou por que ele sofre de uma doença de pele e também é ridicularizado na escola.
Embora tenhamos um panorama da estranha vida de Will e de como ele convence o amigo a participar das escavações com ele (onde acham uma estranhíssima sala vedada, a qual até agora estou curiosa para entender direito), a história começa de verdade quando o pai de Will desaparece misteriosamente sem deixar pistas. A atmosfera que ronda o desaparecimento é tão inquietante quanto o restante do livro, já que a mãe de Will e Rebeca, assim como a polícia, parecem acreditar que o pai os abandonou, e, por sugestão de um psiquiatra (aparentemente) decide deixar os dois filhos sozinhos e se internar numa clínica.
Destinado a viver com uma tia distante, Will convence Chester a ajudá-lo a procurar pelo pai. As pistas que encontram em seu caderno de anotações os levam a uma escavação secreta, da qual nem Will sabia, e que parece ser um segredo que estranhos homens de sobretudo e chapéus estão dispostos a guardar, perseguindo os garotos pelas ruas da cidade sem nenhuma explicação. Finalmente Will descobre a entrada da escavação do pai, e, junto com Chester, os dois embarcam numa aventura muito maior do que esperariam encontrar.

Pois a escavação, na verdade, encontrou a entrada para uma civilização inteira subterrânea, localizada nas profundezas de Londres. Chester e Will são capturados por soldados e testados por uma estranha técnica de inquérito que lhes rouba todas as memórias. Ao final de um processo torturante e doloroso, Will é tirado do cárcere e separado de Chester, e descobre o motivo: na verdade, Will é filho de um cidadão da colônia, que tinha sido levado para a superfície pela mãe quando ela fugiu. E mais: ele ainda tem um irmão mais novo, Cal, e os homens da superfície que são levados para lá são transformados em escravos.

Will se mostra um bocado contraditório, uma vez que desce à Colônia à procura do pai, mas acaba descobrindo que precisa salvar o amigo de um destino terrível e, ao mesmo tempo não sabe se quer voltar à superfície ou se gostaria de viver mais um tempo com sua nova família. As dúvidas são resolvidas quando Will descobre que o destino de Chester é algo terrível, e ele decide armar um plano para fugir levando o amigo junto. É ajudado por seu tio subterrâneo, o único que parece entender o desejo de Will de sair dali, e acaba levando junto o irmão mais novo e um estranho gato gigante muito fiel.

A fuga é mal engendrada e Chester acaba recapturado pelos Styx, os mesmos encapuzados que os perseguiam na superfície, e que são um tipo de supersoldados. É neste momento também que Will descobre que Rebeca, sua irmã mais nova, na verdade não era o que parecia, e que o vigiou a vida toda, o que o faz questionar novamente sobre quem é sua família de verdade. A intenção dela e do resto dos Styx era descobrir onde se escondia a mãe de Will, mas isso não é revelado em nenhuma parte do livro. Will e Cal fogem e conseguem atravessar a Cidade Eterna, uma magnífica cidade de esmeraldas, porém contaminada com uma estranha doença. Will perde sua máscara e, quando chega à superfície, leva Cal à casa da tia, onde os dois se recuperam.

Mas a vida na superfície não é para Cal e seu gato, e Will precisa resgatar Chester e trazer seu pai de volta. Os irmãos descem novamente à Colônia e, mais uma vez ajudado por seu tio, passam pelos Styx e acabam se juntando finalmente a Chester num carro que ruma para as Profundezas, lugar que os colonos temem e que, possivelmente, guarda segredos ainda mais tenebrosos.

Conclusões...

O principal mérito do livro, a meu ver, foi transmitir uma sensação de claustrofobia tão intensa como a que o leitor comum teria ao adentrar cavernas e mais cavernas longe da luz do sol. Não apenas nas escavações, mas entre os personagens envolvidos há muita tensão. Entretanto, em alguns momentos as reações não são muito convincentes, como a mãe que permite que a filha de doze anos seja responsável pelas compras, roupas e contas da casa, embora o clima surreal talvez tenha sido exatamente o que os autores quiseram passar. É uma fantasia interessantíssima e diferente, que me lembrou de um livro de teoria de conspiração que prega que existe um reino subterrâneo sob nossos pés, “A Terra Oca”. Só achei que a quantidade de pontas soltas que o livro deixa é grande demais, e ao ver depois que “Túneis” é só o primeiro de seis livros, confesso que fiquei um tantinho desanimada (principalmente por não ter as continuações na biblioteca). Agora estou de olho nas continuações.


Pra quem gosta de fantasia e procura algo diferente do tradicional “herói – vilão – magia – dragão”, esta é uma ótima pedida, e que ainda por cima acrescenta alguns conhecimentos geológicos ao leitor!

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