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12 de mar de 2015

SOBRE A ESCOLHA DO TÍTULO



Escolher um título para seu texto pode não ser uma tarefa assim tão fácil. Muitos escritores afirmam que seus títulos aparecem “como por mágica” na cabeça, outros dizem começar um livro a partir do título. Se, assim como eu, este não é o seu caso, veja algumas dicas para definir o título do seu livro, com base no que vejo em nas livrarias.


Seja rápido e direto.

Use palavras simples, de fácil memorização

Use palavras que tenham uma sonoridade agradável

Use palavras que provocam curiosidade, mas que não revelem muito sobre o livro

Se for usar uma frase, tenha cuidado para que ela não seja tão extensa que pareça uma sinopse.

Quando nomeei meu primeiro livro pela primeira vez, eu tinha uma frase na cabeça, algo que imagino ter vindo de “A fantástica fábrica de chocolates”, ou algo assim da minha infância. O título ficou: “A fantástica história do Mundo de Bhardo – Octoforte e os Objetos Supremos”, um título extremamente comprido, que nem aparece completo em nenhuma busca na internet. 

Depois de ouvir a resenha do Jacó Galtran comentando a respeito do tamanho do título, algo que já me incomodava, resolvi mudar. Resumi para “Mundo de Bhardo” como o título da saga, seguindo a opinião de pessoas próximas, pra quem eu dei as opções “Bhardo” ou “Mundo de Bhardo”. E o título do livro ficou apenas “Os Objetos Supremos”.

Ainda não é um título enxuto, mas foi o mínimo a que consegui chegar sem perder a linha. Títulos grandes correm o risco de fazer o leitor se desinteressar logo no primeiro olhar, pois remetem a artigos científicos, dissertações técnicas e monografias de conclusão de curso. Nas bibliotecas, nos diretórios de pesquisa virtual e até na fala das pessoas, o título será resumido. Ao invés de falar para o colega           que está lendo o “Mundo de Bhardo”, por exemplo, a pessoa diria que está lendo “A fantástica… ah, um nome lá compridão”. Quanto menos palavras, melhor.

Para histórias de fantasia temos que ter muito cuidado com o título, pois o autor pode se sentir tentado a dar ao livro um nome de lugares fantásticos e difíceis de pronunciar. Algo como “Stranzuzkbüt’trach” (isso não existe, inventei agora só pra exemplificar) soa como estrangeiro e não diz nada sobre a obra. A sonoridade é um elemento importante a se considerar, como é o caso do Silmarillion, de Tolkien.

Um dos meios mais usados para nomear livros é colocando o nome do protagonista, como “Harry Potter”, “Artemis Fowl” e “Percy Jackson”. É neste nome, portanto, que recai o maior cuidado com a escolha, pois ele deve ser sonoramente agradável e não ser extenso demais (preferencialmente ser composto por duas palavras). No caso de uma série, usa-se muito colocar o nome do protagonista + subtítulo que evoque o tema principal da história que ele vive naquele livro. Outro jeito muito usado pelos autores brasileiros é dar ao livro um título ligado à ocupação ou à definição do protagonista, como em “O Alienista”, “O Alquimista”, “O Guarani”, etc. Provocam curiosidade justamente por ser uma denominação comum a muitos indivíduos, fazendo o leitor questionar, por exemplo, “o que teria de especial em ser jardineiro para se escrever um livro com esse nome?”. Outros autores gostam de usar palavras que definem ou remetem à emoção que o leitor deve sentir ao acompanhar a páginas do livro, ou àquela sobre a qual o livro trabalha, como “Ansiedade”, do Augusto Cury, ou “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austem.

Bom, estas são apenas algumas dicas, mas no final, quem decide o título do livro é o autor (embora muitas vezes com a interferência das editoras). O mais importante é fazer com que o possível leitor sinta-se compelido a pegar o livro nas mãos para analisar as outras coisas que vão cativá-lo, a capa e a sinopse, coisas que, em conjunto, farão com que ele não resista e leve o livro para casa. E

A Borboleta - Resenha



A Borboleta (O Enigma da Lua) – Liége Báccaro Toledo

Sinopse

A Dama da Borboleta é uma enigmática figura do mundo de Edrim, uma personagem folclórica que aparece em canções e contos de fada nos continentes de Amspar e Lontar. No entanto, ninguém sabe ao certo quem ela foi ou se ela realmente existiu. Para as crianças, ela não passa de uma linda mulher com asas azuis como safira; alguns dizem que ela foi uma guerreira que lutou pela paz entre elfos e homens, e outros contam que era uma andarilha, uma mulher perdida e silenciosa, que falava apenas com as borboletas.

O conto "A Borboleta" conta a verdadeira história por detrás das lendas...





A Borboleta é um conto curto e singelo, que nos apresenta ao mundo de Edrim, um mundo onde os deuses criados pelo equilíbrio de luz e trevas possuem vícios e defeitos, à semelhança do panteão grego, e para onde os filhos destes deuses, cujos corações pendem para a escuridão e o ódio, foram exilados muito tempo atrás.

A história se passa em uma época de guerras entre homens e elfos, quando, apesar das trevas que pairam sobre o lugar, alguns corações bons emergem e desejam a paz e a justiça. Neste lugar, as pessoas que se apaixonam por alguém que não seja de sua raça são perseguidas e mortas, e assim conhecemos Lyriel, filha de uma mortal com um elfo, cujos pais são assassinados por causa deste amor. Para salvar a bebê a mãe de Lyriell faz um sacrifício, e por causa disso a única deusa que ainda conserva apenas o amor pelo povo a transforma em uma dragoa de beleza incomparável, com olhos de safira e asas de borboleta, um ser que os homens até então não conheciam. É contado que os deuses têm apenas uma chance de criar um dragão, e, para tanto, precisam sacrificar um ser humano escolhido, por isso essas criaturas são tão raras.

Lyriell é salva e criada por uma rara família mista, e cresce junto com o meio-elfo Eldar, e percebemos que há mais sentimentos entre os dois do que o de irmãos de criação. Mas, quando a jovem vence um antigo temor, ela se lembra do que aconteceu no dia em que se separou de sua mãe, e decide sair pelo mundo em busca de justiça. Torna-se, então, uma paladina, a “guerreira da borboleta”, pois, estranhamente, uma grande borboleta azul a acompanha por onde quer que ela vá, sem que nem mesmo ela saiba a razão.

Tudo muda, no entanto, quando a misteriosa borboleta adoece e Lyriell se vê completamente sozinha no mundo. A saudade de casa a faz retornar e encontrar o que deixou para trás.

O conto é delicado como um conto de fadas, uma história de amor que claramente tem o objetivo de sugerir muitas outras histórias. Ele possui uma carga emocional interessante, que prende o leitor e o faz simpatizar com os personagens mesmo a história tendo tão poucas páginas. Os dragões são muito diferentes e os métodos de suas criações são escolhidos pelos deuses, por isso cada um possui uma característica e uma personalidade própria. Uma leitura agradável, que com certeza vai cativar o leitor e fazê-lo desejar ver mais histórias no mundo de Edrim.



5 de mar de 2015

A MOTIVAÇÃO NA VIDA DO ESCRITOR



Acompanhando os posts de aspirantes a escritores nas redes sociais, percebo que uma das maiores angústias dos escritores é justamente a procrastinação com o ato da escrita. Num mundo como o nosso, onde a maioria das pessoas vive de torpedos e twitts de 140 caracteres, pensar em dedicar longas semanas a um único manuscrito pode soar como uma atividade extenuante e aborrecida, cuja execução vai proporcionar longos períodos longe de outras coisas que o autor poderia fazer, pensamento que é outro motivo de angústia: o da culpa por não se dedicar o suficiente a sua obra.




Na verdade, tudo é uma questão de motivação. É simples colocar assim, mas não é simples explicar como uma pessoa pode se motivar a fazer algo. Por isso achei por bem que deveria partilhar um pequeno resumo sobre o que sei do assunto, que foi parte dos estudos da matéria “Psicologia da Educação”, que estudei no curso de Licenciatura da faculdade Claretianas.

O curso era voltado a professores, que precisam motivar seus alunos a estudar e a aprender coisas que, a princípio, parecem não servir pra nada. Porém, entender os mecanismos da mente humana pode ser determinante na hora de estabelecer prioridades na sua vida e decidir se escrever é mesmo o que lhe trará felicidade. Vamos ao assunto?

Existem dois tipos de fatores que levam uma pessoa a determinados comportamentos: a motivação extrínseca e a intrínseca.

Como você deve imaginar, a motivação extrínseca é aquela que vem de fora e que age sobre o indivíduo. Elas incluem recompensas, ganhos financeiros, pressão social, punição, prestígio, ascensão social e outros. São as coisas que você pode ganhar ou perder ao fazer ou não o que deve fazer (uma criança pode fazer o dever porque, se não o fizer, vai apanhar da mãe), que levam o indivíduo à realização.

Talvez para alguém que já seja famoso tornar-se escritor pode ter motivação extrínseca. No meio artístico, por exemplo, um ator que também escreve é visto como um intelectual, e o livro escrito por ele agrega conteúdo ao seu currículo profissional e possibilita que ele alcance novos projetos em sua carreira. Em outro exemplo, um ator que já tem uma fama consolidada pode pensar que dedicar-se a um roteiro de filme (acredite, é tão ou mais complicado que escrever um livro), pode levá-lo a um novo patamar na carreira, a novos desafios, e valorizá-lo ainda mais por sua própria profissão. Ou, ilustrando casos mais comuns, um aluno pode se sentir extrinsecamente motivado a escrever uma monografia de 150 páginas quando ela será necessária para concluir sua graduação de 5 anos, por exemplo.

Para um indie, como eu, a motivação extrínseca não pode ser predominante. Normalmente, todo profissional fantasia ter sucesso na carreira. Como independente, não posso deixar de admitir que me pego imaginando como seria se eu pudesse me dedicar dia e noite apenas aos meus livros, viajar o mundo dando palestras e lançando novos Best Sellers, e descobrir que não há uma livraria do mundo sem um exemplar dos meus textos. Mas esse tipo de pensamento não deve e não pode nortear a carreira de um escritor iniciante, pois muito provavelmente não é assim que as coisas vão acontecer. Mesmo quando acontecem com pessoas comuns, como foi o caso da famosíssima J.K.Rowling, existiu muita dedicação anterior e várias portas na cara, e se concentrar apenas na glória final leva, invariavelmente, à decepção. Sonhos são importantes, mas os caminhos até a conquista deles são mais importantes ainda.

E isso nos leva ao segundo tipo de motivação: as motivações intrínsecas

"Quando estamos intrinsecamente motivados, não necessitamos de incentivos ou punições, pois a atividade em si é recompensadora" (WOOLFOLK, 2000, p. 327). É o tipo de comportamento que vem do interesse e da curiosidade. Ela não depende de receber algo em troca do que se faz, nem de ser reconhecido pelo que se faz, e normalmente é um sentimento persistente, que não esvanece com a conquista de uma recompensa, nem com a ausência dela. 

E é nesse sentimento interior que o escritor deve criar para desenvolver seu texto. Ver materializada uma história que tem em mente, livrar-se do peso de carregar as vidas imaginárias de personagens que povoam o imaginário do autor, ter histórias próprias para ler para os seus filhos antes de dormir ou registrar uma experiência que você não quer esquecer jamais, são exemplos de motivação intrínseca.

Concentrar-se em um tipo de motivação não quer dizer que você não possa pensar no outro tipo. Se for possível desenvolver e receber os dois tipos de motivação, tanto melhor para seu crescimento profissional e para a conclusão dos seus textos. O autor pode, por exemplo, se sentir orgulhoso por ver seu nome estampado na capa de um livro, gostar de receber elogios e ter uma “injeção de ânimo” ao testemunhar as vendas acontecerem numa sessão de autógrafos, desde que isso apenas complemente a vontade interior que ele tem de se expressar, de concluir sua obra por razões internas. 

Uma dica para impulsionar a motivação na parte mecânica da coisa, a digitação:

Estabeleça uma meta de digitação diária, mas não preencha todos os dias da semana com esse cronograma. Você verá que na primeira e na segunda semana precisará de perseverança e paciência, mas se sua proposta pessoa for escrever 5 páginas por dia, ao final de duas semanas terá 50 páginas, e isso é quase a metade do que têm a maioria dos livros independentes que tenho lido. Não se proponha, no entanto, a escrever 20 páginas por dia, pois além de arrebentar com seus tendões e precisar de vários dias pra se recompor, esgotar sal determinação num dia só pode fazer o efeito contrário ao esperado, e desanimá-lo mais que animá-lo.

E principalmente: divirta-se com o que escreve. Se sua história não está cativando nem mesmo você mais, então é hora de reformulá-la ou partir para projetos mais interessantes. Livro são aventuras para quem lê, mas pra quem escreve pode ser a jornada de sua vida, então que seja uma jornada prazerosa.

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Vida - Resenha



Vida – Leandro Soriano Marcolino
Sinopse
Imagine um mundo onde a biotecnologia está em seu ápice. Onde é comum ter robôs que se assemelham a seres biológicos, substituindo os cachorros como animais preferidos de estimação. Recriar membros amputados é algo simples, e feito com tal perfeição que se torna difícil diferenciar a prótese do membro original. Neste mundo de infinitas possibilidades, Luíza sofre um acidente de carro com seu marido, Rodrigo. Ele entra em coma. Luíza deve aceitar a perda do marido?



Luíza e Rodrigo saem de uma festa de madrugada e, quando o marido alcoolizado pergunta se a esposa poderia dirigir ela se recusa, alegando que não dirige bem à noite. Na estrada, sofrem um acidente de carro e, ao despertar, Luíza se vê num hospital prestes a fazer uma cirurgia para a amputação de uma perna com seu marido em coma. A partir daí acompanhamos o triste desenrolar do dia-a-dia da esposa submissa que se vê, de repente, sem seu ponto de referência, o marido, obrigada a acompanhar o sono constante do esposo. No início ainda há esperança para Rodrigo, mas quando fica claro que o estado de saúde dele não vai melhorar e que, se ele voltar do coma, terá sequelas para sempre, o médico responsável dá à Luíza uma decisão: deixar seu marido definhar e morrer, ou autorizar a eutanásia para que ele possa fazer um transplante do órgão doente por outro construído artificialmente: o cérebro.

Acompanhamos, então, Luíza e seu dilema para decidir se deve ou não autorizar que seu marido tenha o cérebro substituído por um artificial, enquanto tenta entender se o que voltaria seria o mesmo homem que ela conheceu, ou apenas uma réplica. 

Há todo o drama envolvendo o coma de Rodrigo, e o leitor pode acompanhar o desenvolvimento de Luíza, recuperando-se aos poucos e voltando à vida como uma náufraga. Existe um conflito entre Luíza e os pais de Rodrigo, pois estes querem que ela autorize o procedimento o mais rápido possível, enquanto ela está insegura e quer pensar com cuidado antes de tomar qualquer decisão. Um ponto interessante foi a inserção de Frank, o cão artificial de Luíza com seu comportamento quase natural, mas ainda assim artificial. O animal-robô torna-se um paralelo de comparação para Luíza se decidir em relação a seu marido.

O enredo é promissor e a ideia realmente faz o leitor refletir sobre os limites da aplicação da tecnologia na vida humana, e no que um ser humano pode se tornar, caso use a tecnologia indiscriminadamente. No entanto, a narrativa é um tanto prolixa e cansativa. Por várias vezes o autor faz uma pausa para fazer uma reflexão pessoal sobre dramas existenciais. Li na introdução de “Sombras da Noite” (infelizmente não me lembro do nome de quem a escreveu), que o que o bom livro faz de melhor é levar o leitor para dentro da história como se estivesse viajando junto com os personagens, de modo que ele se esqueça de que está apenas lendo um livro. Essas exaustivas pausas reflexivas fazem justamente o contrário, lembrando ao leitor, o tempo todo, de que ele está apenas lendo uma história. Aliás, exatamente na metade do livro, e duas vezes depois disso, o autor chega a introduzir expressões como “… não é a primeira vez que aparece neste livro”, ou “mais uma vez neste livro”. Foi bom ter aparecido apenas no meio do livro da primeira vez, pois senão teria abandonado o livro logo no início, pois as expressões em questão fazem com que todo o drama se perca para dar lugar a algo mais parecido com um livro de autoajuda ou de autoconhecimento. 

O autor optou por explorar quase que absolutamente o dilema emocional de Luíza e, embora exista claramente um mundo de inovações tecnológicas ao redor, estas ficaram limitadas ao cérebro artificial, à perna quase natural que Luíza recebe e aos robôs, presentes em toda parte. A introdução dos robôs na sociedade poderia ter sido mais bem trabalhada, assim como as implicações de ter um marido com um cérebro artificial e as discussões sobre o procedimento com os pais de Rodrigo.
Tem um português impecável e um argumento muito interessante, e tenho certeza de que outras pessoas possuem opiniões diferentes, mas não me cativou.