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19 de ago de 2015

A CHAVE DO GRANDE MISTÉRIO - RESENHA


A chave do grande mistério - Rosa De Souza

Daniel Salinas, arqueólogo brasileiro, é convidado a liderar as escavações de um sítio recém descoberto no Egito. Lá descobre um artefato: uma caixa de topázio misteriosa, que só ele consegue abrir. Dentro dela está um Ank dourado, e somente ele em toda a Terra pode tocá-lo.

Perseguido por uma organização misteriosa, Daniel foge e envolve-se em aventuras inacreditáveis onde ele descobrirá seres do interior da Terra e aprenderá sobre o poder que cada um tem dentro de si.



Sobre a autora
Rosa De Souza nasceu em Lisboa, Portugal, naquele bairro de monumentos inigualáveis e pastéis inesquecíveis, Belém. Depois de ter estudado literatura na Sorbonne em Paris, foi viver nos Estados Unidos.
Lá, estudou contabilidade e descobriu outro lado da sua criatividade, a pintura. Rosa esteve em contato com místicos de vários países e culturas, para definitivamente dedicar-se a estudos que iam da mitologia, à filosofia e história até o misticismo prático, tendo escrito poesia e ensaios, que publicou em várias revistas americanas.

Em 1983, na cidade de Washington D.C., deu início à sua carreira de palestrante, o que é um dos seus maiores prazeres.  Rosa é casada com o ator Aguinaldo José de Souza Filho, e vive em Florianópolis, Santa Catarina, desde 2004. Para ela o mais importante na vida é transmitir ao maior número de pessoas que ninguém nasceu para sofrer, mas para evoluir.

Extraído do site oficial: http://www.rosadesouza.com/sobre.html.

Minhas impressões…
É fácil elogiar um livro quando você se apaixona por ele, é bom elogiá-lo quando você acha que ele poderia ser melhor, mas que está no caminho certo, mas é complicado dizer abertamente que não gostou do que leu.
Apesar da premissa tão interessante, “A chave do grande mistério” me decepcionou demais. Pela quantidade de livros que a autora já publicou, imaginei encontrar uma escrita madura e coerente, ao menos argumentos plausíveis ou, pelo menos, convincentes, sobre algum “grande mistério”. Porém, como não acontecia há tempos, tive vontade de abandonar o livro antes de chegar à metade.

Em primeiro lugar, não sei em que língua o livro foi escrito originalmente, mas o texto todo precisa de uma revisão urgente. Isso, em si, não seria o maior problema, se a história fosse minimamente satisfatória, mas não é. Ela se enrola em diálogos onde cada fala dura quatro, cinco páginas, e se desdobra em milhões de divagações a respeito do âmago do ser humano, o que, de forma alguma, ajuda a compreender alguma coisa. Algumas das frases têm realmente impacto, mas são tantas, e se repetem tantas vezes ao longo do livro, que acabam perdendo o sentido.

Daniel Salinas, que ao longo do livro encontra-se com outras quatro civilizações teoricamente mais avançadas que nós, e que desejam nosso equilíbrio para que nossas guerras nucleares não os afetem, embora adquira poder para se teletransportar, se curar, etc., não passa a sensação de que evolui. E as civilizações que ele visita (ou, melhor dizendo, que o abduzem), embora apresentem, cada uma, suas melhorias em relação ao nosso mundo, têm outros tantos defeitos que não consigo entender o porque de serem consideradas melhores do que as nossas. Além disso tudo a história por trás da organização secreta que comanda o mundo e que deseja destruir Daniel Salinas e seu Ank misterioso é totalmente descabida. Em certos momentos, o texto passa de uma efêmera tentativa de se aproximar de algo como “O Código Da Vinci”, sem nenhum sucesso, para a narrativa de um capítulo de “Dragon Ball Z”.

Porque não vou conseguir falar tudo sem revelar alguma coisa sobre a história. É impossível entender a evolução de Daniel Salinas que, nas últimas páginas do livro, totalmente apaixonado por sua mulher Marília, transa com outra personagem que teve a vida sofrida simplesmente porque o lugar era propício e aquela mulher o amava. Não consigo entender que "evolução" é essa do ser humano, que promove que não ser fiel e transar com quem quiser faz sentido numa sociedade mais evoluída (não é discurso de puritana, simplesmente não encontrei um argumento favorável a este pensamento, e o livro não traz nenhum, a não ser o "assim é evolução e ponto". Gosto de ser convencida, de ser obrigada a repensar minhas convicções, e só cheguei a me aborrecer com a ideia). Tampouco entendi como, após a “transformação” de todas as pessoas do mundo — que matou todas as pessoas que não quiseram evoluir — deixou vivo o homem que queria matar Daniel, e deu a ele todos os poderes de um ser evoluído. Não há explicação convincente também para o fato de uma sociedade celestial vir nos ajudar a evoluir, sendo que eles vivem tão distantes de nós. Pelo que se diz no livro, as nossas “ondas” negativas soariam no espaço, afetando-os, mas essa explicação simplesmente não é suficiente. Não soou genuína. Mesmo em um livro de fantasia, você tem que conseguir convencer seu leitor, e se a raça humana estivesse diante de um povo alienígena e bonzinho que veio para ajudá-la a se transformar a troco de nada, tenho certeza de que pouca gente iria confiar cegamente nesse povo. Além disso e da bizarrice que são os “estupros” que Daniel sofre das mulheres de duas raças subterrâneas (bizarrice, porque o sexo delas é bem diferente do nosso), fiquei imaginando que tipo de mundo perfeito resulta de uma transformação onde metade das pessoas – das suas famílias, dos seus amigos, dos seus próximos – simplesmente morreu porque não evoluiu como o esperado naquele exato instante.

Para mim é um livro esquisito, mais longo do que o necessário, que se repete dezenas de vezes, e que não satisfaz. 


12 de ago de 2015

JOGOS VORAZES III - ESPERANÇA - Resenha

A Esperança - Jogos Vorazes - Livro 3 - Suzanne Collins

Sinopse

Depois de sobreviver duas vezes à crueldade de uma arena projetada para destruí-la, Katniss acreditava que não precisaria mais lutar. Mas as regras do jogo mudaram: com a chegada dos rebeldes do lendário Distrito 13, enfim é possível organizar uma resistência. Começou a revolução. A coragem de Katniss nos jogos fez nascer a esperança em um país disposto a fazer de tudo para se livrar da opressão. E agora, contra a própria vontade, ela precisa assumir seu lugar como símbolo da causa rebelde. Ela precisa virar o Tordo. O sucesso da revolução dependerá de Katniss aceitar ou não essa responsabilidade. Será que vale a pena colocar sua família em risco novamente? Será que as vidas de Peeta e Gale serão os tributos exigidos nessa nova guerra?




Considerações

No último livro da trilogia, somos apresentados a um cenário diferente da arena em que Katniss disputou os dois últimos Jogos Vorazes. Agora, ela não está mais submetida à Capital e ao Prefeito, pois está sob a proteção do Distrito 13, que, supostamente, não deveria mais existir.

Finalmente somos apresentados à política que mantém a frágil estrutura de Panem e seus 12 Distritos. Revoltados com suas condições de vida e com a rígida segregação a que são submetidos, os Distritos começam a se levantar contra a Capital, e adotam Katniss — a sobrevivente de duas edições de Jogos Vorazes, aquela que demonstrou compaixão por uma garota que não conhecia, e que adotou seu canto assobiado imitando um tordo como símbolo, forçada a combater aquele que eles pensam ser o amor de sua vida, ainda por cima (teoricamente) grávida — como seu estandarte.

Mas a Capital não pretende perder os privilégios que tem. Como centro do poder armado, seus moradores desfrutam da melhor fatia do que é produzido em cada um dos doze Distritos, e o Prefeito pretende manter as coisas exatamente como estão, por isso, como retaliação pela insolência de Katniss, ele bombardeia e destrói o Distrito 12, aquele em que ela vivia.

Resgatada da arena preparada para o Massacre Quaternário, Katniss acorda num lugar que, supostamente, não existe mais, o Distrito 13, que se envolveu numa disputa armada com a Capital no passado, e, segundo consta nos noticiários repetidos, foi destruído como o 12. A verdade é que o tal Distrito aceitou um acordo para sair do cenário, pois um conflito poderia devastar o pouco que sobrou da sociedade, já que o 13 era o Distrito que possuía armas nucleares.

No entanto, a independência do Distrito 13, que parece a princípio uma questão de liberdade dogmática, na verdade tem outras aspirações. A líder do 13 é uma mulher dura, que não se deixa contaminar pelos ânimos inflamados dos rebeldes e demonstra, a todo momento, seu descontentamento em usar Katniss como símbolo de sua rebelião.

A narrativa em primeira pessoa nos coloca na pele de Katniss, que se vê presa como uma peça num tabuleiro jogado pela líder do 13 e pelo Prefeito. A ansiedade dela transpassa pelas páginas, e a dúvida entre Peeta e Gale, os dois rapazes com quem ela pode fazer um par romântico, perde espaço para a insanidade que ameaça tomar conta dela. Katniss está mais sombria e perturbada, e vai piorando a cada página, mostrando sinais da deterioração causada pela participação nos Jogos Vorazes e por se ver numa situação sem escapatória: a de inspirar o povo à rebelião.

Embora o livro seja tão fácil de ler quanto os outros dois, e prenda da mesma maneira, o clima claustrofóbico tirou um pouquinho do brilho da história. Katniss é um símbolo, mas como podemos ver através dos olhos ela, sabemos que, na verdade, ela apenas se sente usada mais e mais, agora pelo Distrito 13, que quer tomar o poder da Capital. Os conflitos emocionais aos quais ela é submetida são devastadores, especialmente quando Peeta é resgatado após uma tortura com veneno e lavagem cerebral que o faz pensar que Katniss é um monstro. E, quando a batalha se torna presente, Katniss se vê numa Capital cercada pelas mesmas armadilhas que ela conheceu na arena dos Jogos Vorazes, e o que poderia ser uma guerra sem precedentes se transforma numa gigantesca edição dos tais jogos, que culmina com mais mortes do que um mundo pós-apocalíptico poderia admitir, e perdas irreparáveis para a heroína.

No ápice do livro, após a derrota da Capital o Distrito 13 decide fazer uma edição final dos Jogos Vorazes, colocando para competir os filhos e filhas dos membros da Capital, como punição. Horrorizada, Katniss concorda, só para ter liberdade para agir conforme sua própria consciência manda. Então acontece o clímax do livro, aquele momento em que Katniss toma a decisão de atirar sua flecha final na líder do 13° Distrito, deixando Panem  sem um governante, pois o Prefeito também morre, e mudando finalmente os rumos da história. O final foi interessante, apesar de previsível.

No geral o livro é bom, embora o clima seja pesado a ponto de deixar o leitor com uma sensação de desespero. Fica claro que Katniss e Peeta jamais se recuperarão de suas experiências nos Jogos, que Gale se transformou completamente, assim como Haymitch, mentor de Katniss. O livro se chama “Esperança”, mas o que vi no final foi a promessa de que não há muita “esperança” para aquele povo, que fica sem governantes e cujo símbolo, a garota que eles seguiram, se transforma numa desvairada, sem poder para liderá-los. Pelo livro todo esperei que Katniss superasse sua instabilidade e seus medos, mas isso não acontece. Pelo menos ela termina com a pessoa certa, pois Gale se afasta de tudo em que ela acredita ao longo da história, e os dois passam a compartilhar apenas lembranças de algo que não existe mais. Peeta, ao contrário, representa o futuro, e é a única pessoa capaz de compreender o que ela sente.

Katniss nos deixa um breve relato de sua vida pós Jogos e rebeliões, e encontramos uma pessoa um pouco mais controlada, embora um bocado paranoica, vivendo com um marido que, vez por outra, a enxerga como monstro, e tendo como vizinho um bêbado irrecuperável, morando no que restou do Distrito 12, onde pouquíssimas pessoas residem também. Ela luta para manter a mente sã e ser uma boa mãe para as crianças que ela não queria – não por rejeitá-los, mas por medo de colocar crianças naquele mundo estranho. Pode parecer, para alguns, um final perfeito e romântico, mas achei um bocado triste. Muito real, porém, se considerarmos o fato de que os sintomas dela são similares aos de pessoas com traumas pós-guerra.


Conclusão: é um final adequado à serie, mas poderia ser melhor, especialmente porque, além do tom torturado da heroína, achei a premissa política um pouco ingênua. Não há terceiras opções: ou é o Distrito 13 ou a Capital, e isso torna as coisas um pouco infantis. O bombardeio da Capital ao Distrito 12, destruindo-o completamente, é uma cena poderosa, mas totalmente irracional: era de lá que vinha o carvão que a Capital usava e, sem o produtor, não fica claro como será feita a extração do minério tão necessário, por exemplo. Há muitos outros detalhes menores, como o fato do 13 possuir armamento nuclear e que poderia ter sido mais explorado.